O Sangue - Crônica

 


Na penúltima vez que tive que tirar sangue, ganhei um pirulito de morango e uma medalha de coragem em forma de adesivo. Isso foi no ano passado.

Agulhas não são exatamente o que causam o pânico. Claro, não sou a maior fã delas, mas também não tenho nenhum problema em tomar vacina. O que realmente me aterroriza é o sangue. Pesquisei no Google e descobri que o termo correto para isso é hematofobia. Não sei direito quando começou, mas desde criança tenho medo de tudo o que é relacionado a hospitais, médicos e principalmente, sangue. E, como se não fosse o suficiente, ainda sou meio hipocondríaca — uma piadinha de mau gosto do universo.

Qualquer pequena situação me deixa em alerta. Se houver qualquer sinal de sangue, já é motivo para eu passar mal, tal qual Bella Swan no capítulo cinco de Crepúsculo – quem leu os livros sabe. Pessoas que se machucam e dizem: 'Ei, ralei o joelho, quer ver?' Não, definitivamente não quero. Filmes de terror com espíritos? Conte comigo! Afinal, o que são algumas noites sem dormir? Agora, filmes de terror com sangue? Não, obrigada. Séries de televisão de médicos? Passo longe. Alguém se cortou e precisa de ajuda? Boa sorte, vai ter que me ajudar também porque estarei quase desmaiando.

Tirar sangue é, sem dúvidas, a pior parte. Primeiro, que sou daquelas pessoas que só vai no médico quando está morrendo ou quando minha mãe obriga. Segundo, que eu posso fazer um mini escândalo e ter uma crise de pânico. As enfermeiras do laboratório já me conhecem. Já sabem que eu preciso fazer o procedimento deitada senão desmaio. Já sabem que provavelmente vão precisar de mais alguém para me segurar. Já sabem que eu vou chorar porque sinto absolutamente tudo. O elástico apertando meu braço. A agulha entrando na minha pele. Alguém agarrando meus ombros com força, pedindo pra eu respirar fundo para deixar o sangue fluir. O medo é tanto que eu prendo a respiração. Lágrimas rolam e meus braços ficam roxos por dias – no plural, porque nunca conseguem encontrar a minha veia e precisam ficar me furando até o sangue sair. Mas o pior ainda está por vir.

No mesmo dia, mais tarde, o laboratório me liga. Pedem que eu retorne para fazer o procedimento de novo porque, com a minha crise, não respirei direito e eles não têm sangue suficiente para realizar os exames. Eu choro no banheiro do trabalho porque tenho que passar por todo esse pesadelo de novo. Já falei disso na terapia, tentei algumas táticas que não funcionaram. Já levei fone de ouvido para o laboratório (assim não ouço nada). Já amarrei meu casaco no rosto (assim não vejo nada). Levo a minha mãe junto para passar vergonha comigo (assim não fico sozinha). Nada adiantou.

Meu ex-chefe, um pediatra muito conhecido aqui em Caxias, tem uma teoria. Depois de ver meus braços roxos, meu ataque de pânico por ter que tirar sangue de novo e ouvir minha história, ele disse que eu posso ter ficado com trauma de quando era ainda bebê. Nasci prematura e com sopro no coração. Precisei ficar na incubadora por quase vinte dias e passei os primeiros três anos de vida indo no médico regularmente e fazendo uma montanha de exames. Como eu não lembro de nada disso (nadinha mesmo), aceitei a teoria de que o trauma foi tão grande que eu apaguei da memória, mas que ficou internalizado.

Se passaram anos e ainda tenho problemas com o maldito exame de sangue anual. Porcaria de médicos e seus exames preventivos para verificar colesterol, glicose e um monte de vitaminas e coisas importantes. Mas na última vez, em janeiro desse ano, foi diferente.

Era uma enfermeira que eu não tinha conhecido ainda. Conhecia a Suzana, a Teresa, a Adriana. Aquela era nova e, tadinha, mal sabia o que lhe esperava – uma Marina de vinte e três anos, em pânico na sala de espera. Eu agarrada na minha mãe, que me perguntou, brincando: “Você é um homem ou uma galinha?”. Uma galinha, respondi. Definitivamente uma galinha. Era quase pior que as crianças tomando vacina, que berravam na sala ao lado.

A mulher, que agora não lembro o nome (uma vergonha, eu deveria lembrar), me chamou para a salinha de exames e logo a Adriana disse “Essa aí precisa fazer deitada, tem medo”. Deitei na poltrona e comecei a suar frio. Minha mãe dizendo que não queria escândalo. Eu tentando controlar a crise e as lágrimas. A enfermeira entrou, amarrou a droga do elástico no meu braço e começou a perguntar sobre a minha vida. Quantos anos eu tinha? 23. O que estudava na faculdade? Me formei em Jornalismo. Conforme eu respondia, tremendo de nervosismo e tentando não pensar no sangue e na agulha, ela contou que tinha uma gatinha e perguntou se eu também tinha algum bichinho. Foi aí que eu desatei a falar. Contei sobre os meus seis gatos, o nome deles, onde adotamos cada um e qual era o mais terrível. Quando eu vi, ela já estava com a seringa cheia na mão.

“Já acabou?”, perguntei. “Já”, ela sorriu. Eu nem senti. Não senti nada. Nem chorei.

Agradeci a enfermeira que não lembro o nome e pedi se podia dar um abraço nela. Sem saber, ela me ensinou uma tática nova que talvez me livre do trauma de tirar sangue. Se vai funcionar de novo? Não sei. Vou ter que esperar pelo ano que vem para descobrir.


Por Marina Lima.


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