Vermelho na Neve
Acordei no susto com um estrondo.
Como uma porta batendo com força ou um baque de algo pesado
caindo no chão.
Com o coração acelerado, meu primeiro instinto foi colocar
a mão no lado direito da cama. Gelado. Andrew deve ter acordado mais cedo —
como sempre — e se levantado para fazer o café da manhã na cozinha pequena do
chalé.
— Andy? — perguntei alto, com a voz rouca de sono.
Silêncio.
Ele deve ter saído para a caminhada matinal, pensei. Bem
coisa de Andy.
Os poucos raios de sol passavam pelo vidro congelado da
janela e iluminavam o quarto de madeira. Me estiquei pela cama e peguei meu
celular para checar o horário. Seis e quatorze da manhã. Ainda não tinha sinal
de rede, mas o objetivo de termos vindo para um chalé no meio da montanha foi
justamente por isso.
Precisávamos de um tempo de casal sozinhos para conversar,
passar um final de semana juntos e discutirmos a relação — da melhor maneira
possível, eu esperava. As coisas andam estranhas entre nós há algumas semanas. É
o trabalho, nós dois estamos sobrecarregados, Andy diz. Não sei se acredito
muito nisso. Uma pulga atrás da orelha me sussurra traição, mas Andy não
faria isso. Eu o conheço bem demais.
Encontramos a singela construção de madeira no Airbnb,
localizada há umas três horas de Denver, no Colorado. Pelas fotos, conseguimos
ver que o chalé era até charmoso, apesar de ser um pouco velho e estar literalmente
no meio do nada. Bom, ter um lugar só para nós no meio da neve intensa e
inverno rigoroso era até romântico, pensei ao apertar o botão de reserva.
Mas ao acordar hoje, não pude evitar ficar um pouco
chateada. É nosso final de semana juntos, algo que planejamos com antecedência
e batalhamos com nossos chefes para evitar chamados de emergência no trabalho.
Andy deveria estar na cama comigo. Deveríamos estar conversando, beijando,
transando, qualquer coisa.
Enterro esse sentimento bem no fundo e me levanto da cama.
Não posso estragar tudo ficando triste e criando expectativas irreais. Estamos
juntos há tanto tempo. Nos amamos e nos conhecemos profundamente. Decido me
juntar a ele, onde quer que ele esteja. É o nosso final de semana,
afinal.
Visto meu casaco grosso e minhas botas de neve. Quando saio
do quarto, percebo o quão congelante o chalé está. Não ligamos a calefação
ontem a noite? Tenho quase certeza que sim. Passo as mãos pelos braços na
tentativa de acalmar os arrepios e vou até a cozinha. Tudo está do jeito que
deixamos, com as louças sujas em cima da pia e as migalhas de pão na mesa, mas
noto que o ar gelado vem da sala. A porta da frente está entreaberta e ao me
aproximar, vejo que o atiçador de ferro da lareira está caído no chão. Deve
ter sido isso que me acordou.
— Andy? — abro a porta, sentindo o vento quase congelar meu
rosto. — Amor?
Não o vejo em lugar nenhum. O sol agora sumiu entre as
nuvens, deixando o céu cinza como fuligem de zinco. É uma paisagem bonita. A
neve pinta quase tudo de branco. O chão, nosso carro, a copa das árvores. Tudo
parece cenário de filme de Natal. Se fosse em outro momento, com certeza eu
estaria maravilhada e tiraria muitas fotos, mas não ver Andy me deixa com uma
sensação estranha.
Como se minha intuição estivesse gritando que tem algo de
errado.
Quando vejo as pegadas na neve, em direção ao leste, me
sinto um pouco aliviada. Ele só foi caminhar, é só a caminhada matinal de
sempre, penso, seguindo o seu rastro, deixando meus pés se afundarem no
gelo.
Enquanto ando, percebo algo bizarro. Tudo está tão
quieto. Só consigo ouvir meus próprios passos e a minha respiração pesada, nada
mais. Nenhum canto dos pássaros, nem a voz de Andy. — Andrew? — pergunto de
novo, ficando irritada quando o eco volta com minha própria voz — Juro que se
você estiver se escondendo para me assustar, vou ficar muito brava!
Nada. Silêncio total.
De repente, começo a suar frio. Sinto as batidas do coração
acelerando e os pensamentos a mil. E então, eu ouço.
Pinga.
Pinga. Pinga. Pinga.
Caminho mais rápido, seguindo freneticamente as pegadas,
então paro.
Vermelho.
Vermelho na neve branca.
Um instinto horrível me diz para não olhar para a direita,
mas eu olho.
E o vejo.
Andy.
Encostado em uma árvore, coberto de gelo e vermelho.
Vermelho por tudo. Olhos sem vida e a garganta cortada, pingando sangue.
Pinga. Pinga. Pinga.
O grito de pânico sai da minha boca e finalmente os
pássaros começam a cantar.
Por Marina Lima.



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