Pequenas Coisas - Crônica
Gosto de pequenas coisas.
Penso nelas toda vez que saio de casa, quando olho para o céu ou quando coloco a cabeça no travesseiro, pronta para dormir. Hoje em dia, notar as pequenas coisas se tornou quase uma raridade. A imersão nas telas e o imediatismo nos deixam tão zumbis, tão alheios a tudo ao nosso redor, tão focados em nossos próprios problemas – sejam eles reais ou imaginários. Tornamo-nos seres um tanto alienados, famintos por migalhas de dopamina que os aplicativos de redes sociais nos proporcionam. Ansiosos por aquele movimento de rolar infinito, que enche nosso cérebro com informações que, convenhamos, na maioria das vezes são completamente inúteis.
Não julgo, até porque muitas vezes me encontrei e ainda me encontro presa nesse ciclo viciante virtual, mas, na última semana, desenterrei meu fascínio pelas pequenas coisas. Coisas que você consegue sentir, que te fazem rir, que você não se sente na obrigação de tirar uma foto e postar na internet. Coisas que você só vê quando para e observa.
O movimento das folhas das árvores quando o vento bate. O som que elas fazem ao colidirem umas nas outras. O canto e a coreografia dos pássaros no céu azul-bebê. O chaveiro de pelúcia do Luigi, irmão do Mario, pendurado no para-brisa do caminhão estacionado no posto de gasolina, o Gambino da Dezoito do Forte. A loja de instrumentos que aparentemente está há anos na esquina da Marechal, mas que eu nunca tinha visto antes. Uma menina de estilo gótico esperando para atravessar a rua, tão bonita que minha vontade era pará-la e dizer isso a ela. O sorvete de baunilha que comprei por oito reais e que achei um absurdo (de preço e de sabor – uma delícia, sério).
O tédio e a paciência treinam olhares atentos às pequenas coisas. Para testar essa teoria na prática, criei uma regra para mim mesma: nada de celular em salas de espera, na rua, na mesa de jantar ou em qualquer lugar que eu esteja em contato fisicamente com outras pessoas. Às vezes, levo algo para me distrair – um livro ou um bloco de notas e caneta –, mas são nos dias em que não levo nada que percebo as melhores pequenas coisas. Como a sede dos Correios na Sinimbu, que tem 27 cadeiras na sala de atendimento e 38 lâmpadas (duas estão queimadas). Como a minha manicure, que tem 124 esmaltes normais e 148 esmaltes em gel – sim, eu contei. Como os idosos sorriem para você na rua e acenam a cabeça em forma de “bom dia”. Ou como as revistas antigas na sala do médico, que ninguém realmente olha porque estão todos no celular. Já vi um gato preto passeando de coleira. Uma turma de alunos do São Carlos, caminhando no centro, indo em direção à feira do livro. Os ipês amarelos que estão trocando suas folhas para verdes. Um buraco ridículo na calçada que alguém precisa urgentemente consertar. O cheiro de churros na barraquinha da esquina. As flores secas presas nos arbustos. As pintinhas no rosto da minha mãe e a risada do meu pai. Os pelos dos meus gatos pela casa, no sofá, na cama e nas minhas roupas.
Então, no final do dia, quando paro e penso: o que vai me fazer levantar da cama amanhã? As mensagens para responder? Os e-mails não lidos? O trabalho que me aguarda?
Não.
São
as pequenas coisas. Sempre as pequenas coisas.
Por Marina Lima.



Comentários
Postar um comentário