Rio

 


Nicolas estava deitado na cama, comendo um salgadinho contrabandeado enquanto assistia Bob Esponja na televisão quadrada do hospital. Ele achava engraçado o fato de o aparelho ser em formato de caixa. “Hoje em dia as televisões são quase tão finas quanto o meu pulso”. Ele queria rir do pensamento, mas lembrou o quanto o esforço iria arder e se limitou a um sorriso fraco. Seu corpo todo doía e ele não precisava de mais dor. Qualquer pequeno movimento fazia seus músculos ameaçarem se rasgar, mas isso não o impediria de esticar o braço para pegar mais um salgadinho de milho cheio de conservantes, não senhor.

A vida na ala pediátrica não era tão ruim. Claro, ele definitivamente tinha dias ruins, dias horríveis até, mas a vida em si não era má. A mãe o visitava duas vezes por dia e revezava com o pai para dormir na poltrona cor-de-burro-quando-foge do quarto. As paredes brancas ao seu redor estavam repletas de desenhos coloridos dos seus amigos e colegas de aula. A comida (que ele também chamava de gororoba) era péssima, mas podia ser pior. Sempre pode ser pior.

Ele tentava manter isso em mente toda vez que passava pelo laboratório de exames até a quimioterapia e, depois, quando voltava à ala pediátrica. Não era um passeio agradável. Era repetitivo, chato e doloroso, mas Nicolas não podia reclamar. Os dias ruins eram na U.T.I e ele a odiava com todas as poucas forças que lhe restavam. Quando o ar lhe faltava nos pulmões e o sangue começava a sair até pelo nariz, ele sabia que era um dia ruim.

Pelo menos as enfermeiras lhe faziam companhia. Elas sim eram legais. Tinha a Maitê, que adorava jogar baralho nas horas vagas (ela sempre perdia no Uno). A Joana, que trazia salgadinho escondido. A Carla, que era meio sensitiva e dizia que estava sempre orando por ele. A Helô, que dava um pouco de medo, mas que no fundo tinha um coração gigante. E tinha a Rio. A Rio só aparecia nos dias bem ruins, mas Nick gostava dela. Ela era calma e fazia ele se sentir melhor quando a dor era insuportável, quando ele sabia que ia para a U.T.I e que talvez demorasse um pouco para voltar. Quando ele sabia que talvez houvesse a possibilidade de ele nunca mais voltar. As coisas estavam feias desse jeito.

Aquele dia em especial parecia ser um dos bons, até Nicolas começar a tossir. Em um momento ele estava assistindo uma cena do Patrick e do Lula Molusco e no outro, havia sangue. Sangue por todo o lençol branco. Manchando o pacote de salgadinho contrabandeado da Joana. Sua garganta queimava e parecia que seus órgãos iam explodir. Seu coração batia fraco demais e o ar não chegava aos pulmões. Se ele já estava se sentindo mal antes, agora estava muito, muito pior. Sempre pode ser pior. Os aparelhos hospitalares apitavam e ele sabia que logo o Doutor Marcelo ou alguma das enfermeiras iriam aparecer.

Por favor. Por favor. Por favor, venham logo.

— Nick.

Rio estava ao seu lado na cama, com seus cabelos escuros soltos, uma camiseta branca e o rosto gentil. Ela deu um leve sorriso ao ver o estado do garoto, em uma tentativa de acalmá-lo.

— Rio... não consigo... respirar... — Ele segurou o peito com as mãos fracas, tentando inspirar o ar que não vinha. O suor escorria pela testa e lágrimas de desespero começaram a brotar nos seus olhos.

— Nick, está na hora de ir — Rio disse com a voz suave. Seus dedos frios ajeitaram com carinho o cabelo molhado do menino.

— Para... a U.T.I? — perguntou com dificuldade.

Rio desviou o olhar.

Uma lágrima escorreu pela bochecha de Nicolas.

— Vai... doer? — ele sussurrou, tentando não demonstrar o quanto estava com medo da resposta. Não sabia se conseguia aguentar mais dor.

Seu coração estava fraco... fraco... quase parando...

— Não, Nick, não vai doer. Eu prometo.

Então, usando toda a força que lhe restava, Nicolas apertou a mão de Rio.

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— Hora da morte?

A voz do Doutor Marcelo cortou o silêncio do quarto. Ele olhou de soslaio para Carla, que tinha sido a primeira a entrar no cômodo, esperando a confirmação.

— Duas e trinta e seis — Helô respondeu baixinho, preocupada com colega que encarava fixamente a cama onde o corpo imóvel de Nicolas estava.

— Insuficiência cardíaca. Vou avisar os pais, com licença.

Assim que o médico saiu pelo corredor, Joana se desmoronou em lágrimas, com o rosto escondido nas palmas das mãos. Tinha se apegado ao menino, aquele que ria baixo para não doer.

— Nicolas tinha poucos dias, Jô, sabíamos disso... — Maitê disse, oferecendo algum conforto — Você deu muita felicidade a ele, sei disso.

— É, e conservantes também... — Heloísa murmurou, forçando um sorriso fraco ao jogar no lixo o pacote amassado de salgadinho, agora manchado de vermelho.

— Carla disse que a morte estava o rondando — Joana sussurrou com os olhos vermelhos arregalados.

— Que coisa mais horrível de se dizer, Jô! — Maitê sentiu os pelos do braço se arrepiarem.

— Não é horrível.

Todas fizeram silêncio. Era a primeira vez que Carla falava desde que tinha entrado no quarto de Nick. Ela ainda encarando o canto vazio ao lado da cama.

— A morte tem muitos rostos. Ela se apresenta de várias formas e não é, necessariamente, horrível. Ele foi em paz, tenho certeza.

Mas ela não diria para as colegas que a viu.

A mulher de branco com o menino.

Apertando a mão dele quando os aparelhos pararam.

Rio.

O nome dela era Rio.



Por Marina Lima.

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